UNE EN ISO 19650-1: Novidades e conceitos-chave da nova norma ISO
Isto é só o começo. Primeira norma da série ISO 19650 sobre a padronização da metodologia BIM.
No início do verão foi publicada em castelhano a norma UNE-EN ISO 19650-1, versão em espanhol da norma ISO desenvolvida pela British Standards Institution (BSI) e publicada em inglês alguns meses antes.
Esta norma é a primeira de uma série que está sendo desenvolvida e que vem substituir a anterior norma britânica e a PAS 1192. A publicação desta norma representa um movimento da instituição britânica para expandir sua influência e se firmar como a primeira norma sobre BIM publicada com caráter internacional.
Este primeiro capítulo tem como título: "UNE EN ISO 19650-1: Organização e digitalização da informação relativa a trabalhos de edificação e de engenharia civil, incluindo BIM. Parte 1: Conceitos e princípios (Concepts and Principles)" e foca-se, como seu próprio nome indica, em definir os conceitos básicos nos quais deve apoiar-se qualquer projeto desenvolvido sob a metodologia BIM. Aporta-se uma descrição genérica de como devem ser os processos e redefinem-se muitos dos termos da norma anterior.
A seguir, veremos alguns destes conceitos-chave e em que medidas podem nos afetar.
Por outro lado, indicar que recentemente já foi publicada também em castelhano a segunda parte da norma (UNE EN ISO 19650-2: Organização e digitalização da informação relativa a trabalhos de edificação e de engenharia civil, incluindo BIM. Parte 2: Fase de produção dos ativos (Delivery phase of the assets) que até há pouco tempo só podia ser encontrada nas versões inglesa e francesa.
Enquanto isso, o comitê CEN TC442 está desenvolvendo as partes 3 e 5 desta série, que tratarão sobre os processos de uso e gestão da informação durante a fase de operação e sobre os requisitos de segurança da informação respectivamente, e que se espera sejam publicadas no início de 2020.
Na minha casa (já não) jogamos assim.
A diferença com as publicações anteriores de normas é que esta, ao estar desenvolvida como norma ISO, tem caráter internacional e já foi aprovada pelo Comitê Europeu de Normalização. Isto quer dizer que esta norma deverá servir como base ou referência para o desenvolvimento de possíveis padrões tanto nacionais como europeus.
De alguma maneira, o que esta norma vem tentar é acabar com a atual mistura de normativas e referências e os problemas que isto ocasiona na hora de desenvolver um projeto em BIM. Sem contradizer outros documentos de referência habituais (como os guias da Penn State University, as publicações do BIM Forum, etc.), esta norma pretende estabelecer pelo menos quais são os conceitos e a terminologia básica que todos devemos empregar.
Pretende portanto clarificar os passos a seguir na gestão da informação digital dentro de um processo BIM. Aporta clareza ao ambiente atual, e consegue-se que ninguém mais possa justificar nas diferentes nomenclaturas nos documentos dizendo "é que na minha casa jogamos assim". Embora as verdadeiras regras do jogo, aquelas que nos ajudem a trabalhar no nosso dia a dia, terão que ter um caráter mais local e virão de futuras adaptações da norma.
Veja-se por exemplo que junto à publicação da presente norma, a BSI também publicou o documento PD 19650-0: Guia de transição do Reino Unido, para ajudar na implantação das normas e garantir que se alcançasse o BIM Nível 2 dentro deste novo marco.
O BIM se torna maior: 5 Pontos-chave pelos quais a norma ISO ISO 19650 amplia o alcance da metodologia BIM.
Uma das conclusões mais importantes a que se chega depois de adentrar-se neste primeiro capítulo da norma é que "o BIM se torna maior." Isto é ao menos o que podemos extrair dos 5 pontos-chave que analisamos a seguir.
Maturidade BIM.
A publicação de uma norma ISO termina de consolidar o conceito de que o BIM veio para ficar, caso ainda restasse algum despistado que o duvidasse. Isto representa um avanço a nível técnico, mas também a nível estratégico onde já é difícil justificar que qualquer avanço no setor não passe por uma integração dentro da metodologia BIM.
Escalabilidade.
Neste caso, deveríamos dizer mais do que "o BIM se torna maior" que o BIM se torna pequeno também. E é que um dos pontos mais destacáveis dos princípios da norma é o que vem contradizer aquele pseudo-slogan/justificação que dizia que "o BIM é apenas para grandes projetos".
O BIM é para todo tipo de projetos. Assim na própria introdução do documento se afirma que esta norma "é de aplicação a ativos construídos e a projetos de construção de qualquer tamanho e nível de complexidade".
Embora seja óbvio que nem todos os projetos são iguais, e que a estrutura dos mesmos vem determinada por esse tamanho e nível de complexidade. Por isso enfatiza-se esse conceito de escalabilidade: "Deverão aplicar-se de maneira proporcional e adaptada à escala e complexidade."
Atualmente sua aplicação em praticamente todos os megaprojetos já é uma realidade. Entretanto, os benefícios da aplicação da metodologia BIM poderiam ser considerados ainda mais altos proporcionalmente nos casos do "Little BIM", onde é mais simples garantir um controle sobre sua aplicação. Em qualquer caso, a estrutura de equipe, os requisitos e os objetivos deverão estar adaptados às características do projeto.
Para todos:
Outra das razões pelas quais consideramos que o BIM "cresce" segundo esta norma são os papéis e agentes aos quais se cita como destinatários da mesma.
"Os conceitos e princípios de este documento estão dirigidos a todos aqueles envolvidos no ciclo de vida dos ativos. Isto inclui, mas não se limita ao proprietário/operador do ativo, o cliente, o gestor de ativos, a equipe de design, a equipe de construção, um fabricante de equipamentos, um especialista técnico, um regulador, um investidor ou um usuário final."
Ou seja, destaca-se a transversalidade da gestão da informação dentro de um projeto. Isto é especialmente importante para fazer entender que a metodologia BIM, e a gestão de sua informação associada, tem que ser algo que envolve todos os departamentos das empresas, e não é algo que se possa manter isolado ou em paralelo. Os modelos BIM por exemplo são contêineres de informação onde departamentos como finanças, jurídico ou administração também terão que ir consultar informações relativas às suas tarefas.
Durante todo o ciclo:
Outro conceito que se ampliou na presente norma é o do ciclo de aplicação.
Assim, no principal documento de requisitos prévios, o EIR (Exchange Information Requirements) especifica-se que devem ter cabimento tanto aqueles requisitos de informação do projeto (PIR-Project Information Requirements) como os referentes à informação do ativo (AIR-Asset Information Requirements).
"Este documento aplica-se a todo o ciclo de vida de qualquer ativo construído, incluída a planificação estratégica, o design inicial, a engenharia, o desenvolvimento, a documentação e a construção."
Inclui-se ademais este gráfico renovado, onde a fase de desenvolvimento do projeto se localiza como uma pequena parte da gestão da informação em comparação com a fase de operação, e enfatizam-se as fases de transição (A e C) onde se produz a transferência de informação do projeto realizado ou a realizar ao ativo e vice-versa.

As fases de transição A e C são pontos-chave do processo.
A primeira, A, coincidiria na maior parte dos casos com o desenvolvimento do projeto edificatório, onde se extrai a informação do ativo caso a haja (do edifício a demolir, do terreno, ou do edifício sobre o qual fazer uma reforma, por exemplo).
A parte C corresponde-se com a entrada de informação desde a fase de desenvolvimento do projeto até a parte de operação do edifício, o que coincidiria com a informação e/ou modelos AsBuilt.
Cabe destacar que se ressalta o caráter escalável deste ciclo, que aplicaria a qualquer intervenção sobre um ativo em qualquer estado em que se encontre.
- Toda a informação:
Não é um conceito novo, pois tanto o título da norma "Organização e digitalização da informação(...)" como nas próprias siglas de BIM a informação aparece como a chave de todo o processo_._
O certo é que a gestão desta informação volta a ser o principal aspecto da norma, e sua estruturação dentro do CDE (Common Data Environment) um dos pilares sobre os quais já se fundamentava a PAS 1192, e continua fazendo esta Norma ISO 19650.

O que sim que nos pareceu novo e muito interessante a respeito da informação é a introdução de um conceito-chave como é a granularidade da informação.
Este conceito de granularidade vem ressaltar o fato de que a informação aportada deve ser a mínima necessária para satisfazer cada requisito. Ou seja, mais informação do que a necessária não ajudará no desenvolvimento do proposto, e sim dificultará a correta utilização daquela que é necessária.
Por sua vez, chega-se até a indicar sua importância afirmando: "A granularidade da informação alfanumérica deveria considerar-se ao menos tão importante como a da informação geométrica."
Portanto, o nível de definição e/ou desenvolvimento da informação deverá estar sempre subordinado à consecução dos objetivos propostos.
Podemos concluir então que para o desenvolvimento BIM, o mais importante será:
Informação adequada, no lugar adequado, no momento adequado.
Por último, e em relação à gestão da informação, introduz-se um esquema proposto como perspectiva sobre as etapas de maturidade na gestão de informação analógica e digital. Consideramos que este é um tema amplo e muito interessante por isso motivou o seguinte post:
"Perspectiva sobre as etapas de maturidade: Uma visão em detalhe do proposto pela norma ISO-19650."