Blockchain e sua convivência com o BIM: 1. Introdução

Um esclarecimento antes de começar: As ideias propostas nesta série de artigos sobre BIM e Blockchain partem da nossa opinião pessoal baseada em nossa experiência e estão enquadradas em um espaço de tempo muito concreto, a tecnologia muda muito rapidamente e estas observações poderiam ficar obsoletas em pouco tempo…

O que é Blockchain?

Fonte: Wikimedia.org

Em termos simples poderíamos definir como um livro de registros digital ou banco de dados distribuído ao longo de uma rede descentralizada (DLT) onde cada entrada é registrada com uma assinatura criptográfica imutável (HASH) e agrupada em blocos com o resto das entradas.

O conceito de blockchain pode englobar múltiplas variantes e usos. Neste texto vamos nos concentrar nas “Enterprise blockchain”, cadeias de blocos semi privadas ("Permissioned blockchains" em sua vertente federated ou consortium) e seu uso como plataforma para facilitar e/ou automatizar processos e transações entre diferentes partes de um ambiente empresarial, que são as que tentamos valorizar junto com o BIM.

As principais diferenças entre estas e as cadeias públicas são:

Privacidade

Os dados não precisam ser públicos, podem ser mantidos dentro do grupo que participa da cadeia.

Financiamento das operações

Enquanto nas cadeias públicas se utiliza gas para realizar cada operação, nas redes privadas costuma-se pagar uma assinatura para ter acesso.

Desempenho

Por serem redes mais reduzidas, aumenta o desempenho e o número de operações por segundo que podem ser realizadas.

Que características oferece?

Fonte: Wikimedia.org

Consenso

Para adicionar um novo registro, ele precisa ser validado por todos os participantes relevantes.

Transparência

Todos os registros estão unificados em um mesmo lugar ao qual todas as partes envolvidas têm acesso ao mesmo tempo.

Imutabilidade

Uma vez criado e aprovado um novo registro ou bloco, este não pode ser modificado ou apagado, com o qual a informação permanece inalterável.

Rastreabilidade

Todas as peças de informação que foram adicionadas desde a criação da cadeia estão disponíveis para consulta ou auditoria.

Capacidade de automação

As transações podem ser automatizadas mediante contratos inteligentes e integrações dentro de outras plataformas.

Descentralização

Isto é mais relativo quando falamos de cadeias privadas, mas continua oferecendo um sistema que não depende de terceiros ou soluções proprietárias.

Para que podemos utilizá-lo?

Fonte: Wikimedia.org

Identidade e registro digital

A tecnologia blockchain nos permite o controle documental de um ativo de maneira unificada durante toda sua vida ("asset life-cycle management") de forma descentralizada, o que aumenta a acessibilidade e interoperabilidade (Acabou-se buscar em 10 bases de dados e APIs diferentes tendo que pedir 20 permissões pelo caminho) e assegura a integridade da informação.

Contratos inteligentes

Mediante um contrato inteligente podemos definir responsabilidades e automatizar processos por meio da criação de condições de cumprimento, aproximando a lógica que segue um programa computacional à lógica de negócios.

Vamos propor um exemplo usando pseudo-código para que seja simples de entender:

Neste exemplo, após a consecução e validação de um objetivo, seria executada a cláusula de pagamento sem necessidade de intermediários.

contrato_inteligente projeto()

Empresa A = Contrata os serviços
Empresa B = Provê os serviços
completo = (Condições de conclusão entre as quais se encontra prazo final) 
€  = Total a pagar acordado 
$ = Total penalidade por descumprimento
paga = processo de pagamento

Se (projeto =  todo completo(antes do prazo))
		Empresa A paga € + 10% de € à Empresa B

Se (projeto = todo completo(no prazo))
		Empresa A paga € à Empresa B

Se (projeto = todo completo(passados entre 1 e 5 dias do prazo))
		Empresa A paga € - 10% de € à Empresa B
…

Se ( projeto = NÃO completo(passados 30 dias do prazo))
		Empresa B paga $ à Empresa A

Tokenização de ativos

Dentro do Blockchain podemos encontrar tokens únicos e indivisíveis (NFT ou "non-fungible token") como "genéricos e divisíveis" (cada token representa o mesmo valor de um ativo, por exemplo uma unidade de Bitcoin).

A tokenização de ativos nos permite gerenciar o valor de ativos físicos dentro da cadeia de blocos usando tokens fungíveis, isso abre novas oportunidades de investimento.

Por exemplo, poderíamos comprar um ativo imobiliário de 1 milhão de euros e vinculá-lo a um milhão de tokens valorizados originalmente em 1 euro. Se este ativo fosse vendido por 1 milhão e meio, cada token teria se valorizado 50 centavos.

Monitoramento da cadeia de suprimentos e passaporte digital

A incorruptibilidade e facilidade de supervisão da cadeia nos apresenta um marco ideal para registrar cada passo da cadeia de suprimentos até sua origem, incluindo o cumprimento de parâmetros e políticas que nos permitam acreditar cada modificação e/ou processo sobre o elemento "rastreado".

Com a colaboração de governos poderíamos chegar a um ponto ideal com homologações automatizadas baseadas no passaporte digital, isto permitiria que tarefas como importar materiais de construção desde países com sistemas de homologação diferentes não fossem atrasadas dias pelas gestões burocráticas.

Como se usa?

Fonte: GuerrillaBuzz Crypto PR em Unsplash

A utilização vai depender do desenvolvedor da aplicação. O mais simples é usar implementações via web ou APP e o ideal é integrá-lo como uma camada adicional dentro de ferramentas que já fazem parte do nosso repertório habitual.

Em todo caso, a parte “complicada” e única deveria ficar no lado do desenvolvedor e como usuário não teríamos que notar nenhuma diferença frente ao uso de uma solução “tradicional”.

O exemplo o temos nos múltiplos DAPPS que já podemos encontrar em markets como Play Store ou em formato web...

Continuará no próximo artigo: "Blockchain e sua convivência com o BIM: 2. Uso e economia"